22/06/2026 às 13:27

A Fotografia Como Narradora do Tempo: o Legado de Miguelito, o Cobra do Astorga

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4min de leitura

Há fotografias que registram acontecimentos.

Outras registram pessoas.

Mas algumas têm uma missão ainda mais profunda: preservar histórias que o tempo insiste em levar embora.

Recentemente, ao ler uma matéria sobre o fotógrafo Emidio Luisi, um dos precursores da etnofotografia no Brasil, fui impactada por uma reflexão simples e poderosa. Em seus trabalhos, Luisi não fotografava apenas rostos ou cenas cotidianas. Ele documentava memórias, modos de vida, tradições e identidades que poderiam desaparecer com o passar das décadas.

Como fotógrafa, imediatamente me perguntei: quantas histórias permanecem vivas graças a uma fotografia?

A resposta veio ao abrir uma caixa de recordações da minha própria família.

Ali estavam fotografias e recortes de jornais que contam parte da trajetória do meu avô, Miguel Angel Alvarez Alvarenga, conhecido nos gramados do Norte do Paraná como Miguelito, o Cobra do Astorga.

No momento em que uma fotografia esportiva ou não é feita, ela parece registrar apenas uma partida. Um lance. Uma defesa. Um gol. Uma escalação.

Mas o tempo transforma completamente o significado daquela imagem.

Décadas depois, aquela mesma fotografia deixa de ser apenas esporte. Ela passa a ser um documento histórico.

Ao observar as imagens do meu avô, não vejo apenas um jogador de futebol. Vejo um jovem imigrante paraguaio construindo sua trajetória em uma região que crescia junto com o futebol do interior paranaense.

Vejo clubes, cidades, amizades e comunidades inteiras representadas em um único enquadramento. Mostra a suas trajetória de vida e no amor que tinha pelo esporte

A fotografia faz aquilo que a memória humana nem sempre consegue: preserva detalhes. E, quando acompanhada pelas histórias transmitidas de geração em geração, ganha ainda mais significado.

Entre as lembranças da família, uma das mais marcantes envolve o talento de Miguelito dentro de campo. Conta-se que ele chegou a ser convidado para integrar o São Paulo Futebol Clube, graças à sua habilidade e destaque no futebol da época. No entanto, recusou a oportunidade porque ainda não era naturalizado brasileiro e não queria abrir mão de sua nacionalidade paraguaia. Curiosamente, anos depois acabou se naturalizando para permanecer no país.

Em seu acervo fotográfico há registros ao lado de grandes nomes do futebol, como Garrincha. Ao observar essas imagens, é inevitável imaginar os caminhos que poderiam ter sido percorridos. Talvez, se tivesse aceitado a proposta e optado pela naturalização naquele momento, sua trajetória pudesse ter se cruzado ainda mais intensamente com alguns dos maiores ídolos da história do futebol brasileiro, como Garrincha e Pelé.

Mas essa é uma daquelas histórias construídas pelos "e se..." que habitam toda memória familiar. O que permanece como fato é que suas fotografias continuam testemunhando uma trajetória extraordinária, preservando não apenas o jogador que ele foi, mas também os sonhos, escolhas e possibilidades que acompanharam sua vida.

O esporte vive do instante. A fotografia vive para o futuro.

O esporte é uma das manifestações humanas mais intensas e efêmeras. Uma partida termina, um campeonato chega ao fim, os torcedores voltam para casa, os anos passam e as gerações mudam. No entanto, a fotografia permanece. Ela resiste ao esquecimento e continua contando histórias muito depois que o apito final é dado.

Nas imagens de Miguelito, ainda é possível perceber a força do futebol amador e regional de uma época em que o esporte representava muito mais do que competição. Era um importante elo social das cidades do interior, um espaço de encontros, amizades e pertencimento. Os jornais que registraram seus jogos talvez jamais imaginassem que, décadas depois, aquelas páginas seriam revisitadas por uma neta fotógrafa em busca das próprias origens. É justamente aí que reside a força da fotografia: ela cria pontes entre tempos diferentes e permite que o passado continue dialogando com o presente.

Talvez o aspecto mais emocionante dessas fotografias seja perceber que elas me permitem conhecer histórias que nunca vivi. Por meio delas, consigo enxergar um avô jovem, descobrir sonhos que existiam antes mesmo do meu nascimento e compreender uma realidade que só continua acessível porque alguém decidiu registrar aquele momento. A fotografia conecta gerações. Ela permite que filhos conheçam seus pais, que netos descubram seus avós e que famílias mantenham viva a memória daqueles que ajudaram a construir sua história. Cada fotografia é, de certa forma, uma conversa silenciosa entre passado e futuro.

Em uma época marcada pela velocidade das redes sociais e pela produção incessante de imagens, vale a pena refletir sobre o verdadeiro valor da fotografia. Fotografar não é apenas produzir conteúdo. É preservar patrimônios afetivos, construir arquivos históricos e criar evidências de que determinadas pessoas, lugares e histórias existiram. Foi isso que Emidio Luisi fez ao documentar comunidades italianas, trabalhadores, famílias e tradições culturais. E é isso que todo fotógrafo faz, consciente ou inconscientemente, cada vez que aperta o disparador. Cada clique possui o potencial de se transformar em uma herança para as próximas gerações.

Quando observo as fotografias do meu avô, não vejo apenas um atleta. Vejo coragem, pertencimento, identidade e legado. Vejo uma história que atravessou fronteiras, saiu do Paraguai, encontrou espaço nos gramados do Paraná e continua viva por meio de imagens preservadas ao longo do tempo. Talvez essa seja a maior contribuição da fotografia para a humanidade: ela não impede que o tempo passe, mas impede que as histórias desapareçam. E graças a algumas fotografias amareladas e recortes de jornais guardados por décadas, Miguelito, o Cobra do Astorga, continua entrando em campo — não apenas na memória da família, mas também na história.


22 Jun 2026

A Fotografia Como Narradora do Tempo: o Legado de Miguelito, o Cobra do Astorga

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